Quinta-Feira, 21 de Março de 2019 - Ano 6

CARTAS QUE NÃO SE REPETIRÃO JAMAIS NR 11 – DE URDA PARA O POETA MARCOS KONDER REIS

12 janeiro, 2019

Blumenau, 09 de agosto de 1983

Marcos querido:

Desta vez a enchente não foi uma coisa divertida nem agradável. Ah! Meu querido, como me sinto cansada, arrasada fisicamente, com os sentidos embotados, parece que com a cabeça no ar. Desde 6 de julho é a primeira vez que me sento para escrever alguma coisa. No dia 6 era a espera do que poderia vir, no dia 7 o rio chegou e começou a dominar a cidade; às seis da manhã já estava de pé, acudindo a casa da minha irmã, onde a água já estava chegando. Mas até aí não se esperava que a enchente virasse tragédia. Minha irmã colocou todos os seus bens na vizinha de cima, mas a água cobriu completamente a vizinha de cima. Esse é apenas um caso isolado; o que aconteceu com ela aconteceu com 80% da nossa gente. Eu moro no Bom Retiro, acho que você sabe aonde é, num prédio que tem uma alta garagem ao nível do solo. A água subiu até quase o primeiro andar do prédio, era uma angústia muito grande. Havia 13 pessoas abrigadas no meu apartamento (quase não havia mais onde as pessoas se abrigarem) e o medo de que a água subisse mais era imenso. Foram nove dias sem luz e sem telefone, treze dias sem uma gota d’água. A comida disponível na cidade acabou (apenas um grande supermercado não foi atingido), nossos desabrigados haviam perdido quase tudo ou tudo o que possuíam, mas mesmo assim procurávamos manter o moral alto e tudo era motivo para rirmos. No sétimo dia da enchente é que as pessoas começaram a chorar – meu querido, não foi nada fácil. Eu chorei quando, no nono dia da enchente, consegui passar para o centro da cidade e vi o que restava da Rua XV, a rua do meu coração. Nada estava inteiro, só se viam escombros e destruição. As lojas, os bancos, todos amontoavam nas calçadas o lixo do que antes fora mercadoria, documentos ou móveis. Aí eu chorei, dentro da lama onde a gente afundava até os tornozelos, morta de pena da minha cidade que fora tão linda e que estava em agonia. Ah! Marcos do meu coração, que coisa horrível que foi! Mas sempre havia a esperança, e o povo todo pegou junto para tentar arrumar tudo de novo, embora houvesse falta de tudo na cidade. A gente só conseguia comprar o que tinha, quando tinha. Só agora no começo de agosto é que conseguimos comprar carne de novo e, ainda assim, racionada (1 kg por pessoa). Comíamos comida de flagelados, vivíamos dentro da lama, e quando a lama secou, uma imensa nuvem de poeira tomou conta de Blumenau. Mas a gente continuava com coragem, e então veio a outra enchente. E depois, a outra, e depois, a outra. Mais três vezes o rio subiu, meu querido, que tragédia! Havia água nas torneiras dois ou três dias por semana, quando havia. Agora o rio parece que baixou mesmo, e temos que reconstruir Santa Catarina. Temos um plano de empréstimos para os flagelados, lá na Caixa Econômica, e tenho trabalhado (todos temos) até quase não aguentar mais. A cidade está cheia de pó, as crianças que foram evacuadas têm que voltar para as escolas, que recomeçaram a reabrir. Meus sobrinhos estão dispersos, Anna Paula em Itajaí, os três pequenos em Curitiba, Laura Alice já de volta de Armação, lutando para sobreviver, apesar da água contaminada (há tifo na cidade), linda e feliz como tem sido desde que nasceu. Mariana procura uma casa urgentemente (a casa dela ficou 30 dias dentro da água), mas não há casas disponíveis livres de enchente, e ela não tem mais sequer um fogão para recomeçar na nova casa, que ainda não se sabe quando será conseguida.

Numa rápida ida a Armação, no domingo (estamos trabalhando inclusive sábados e domingos, para darmos conta de atender aos flagelados), vi um Vale do Itajaí destruído. De Gaspar até Itajaí não existe nem mais um pasto, nem uma vaca, nada. Todos os pastos foram aterrados de lama e ainda estão cheios de água – o gado que não morreu na enchente teve que ser vendido pois não havia com que alimentá-lo – e isso me doeu tanto, meu querido, tanto! Não sei como vai ser daqui para a frente, mas espero que Santa Catarina volte a ser o que era, só que vai ser tão difícil! Meu querido, nem ao menos lhe perguntei como você está, mas desejo sinceramente que você esteja melhor do que nós. É quase meia noite, tenho que ir dormir, senão amanhã não consigo trabalhar, e há tanto serviço! Queira-me bem (ainda não deu para ler Praia Brava – não há condições psicológicas para se ler) e me escreva. Sinto muita falta das suas cartas. Um abração,

Urda

(Escrito por Urda Alice Klueger, escritora, na data acima)