Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2019 - Ano 6

Molécula produzida pelo próprio corpo é nova arma contra gordura abdominal

10 janeiro, 2019

A prática de exercícios físicos é a principal medida para perder a barriga e mantê-la sob controle. Mas cientistas tentam entender melhor como se dá a redução de gordura nessa parte do corpo a fim de desenvolver medidas mais eficazes de emagrecimento. Em experimentos com idosos, pesquisadores dinamarqueses descobriram que a molécula interleucina-6, produzida pelo corpo quando há inflamações e traumas, desempenha papel essencial nesse processo. Detalhes do trabalho foram divulgados na edição desta semana da revista especializada Cell Metabolism.

Anne-Sophie Wedell-Neergaard, pesquisadora da Universidade de Copenhague, conta que análises anteriores mostraram que 12 semanas de exercício de bicicleta diminuíram a gordura visceral em adultos obesos. O efeito, porém, foi abolido em participantes tratados com tocilizumabe — droga que bloqueia a ação da interleucina-6 e é usada no tratamento da artrite reumatoide.

Com base nesses resultados, os investigadores desconfiaram que a presença da interleucina-6 poderia desempenhar papel importante na regulação do metabolismo energético. Para desvendar a dúvida, eles acompanharam, durante 12 semanas, 53 adultos obesos escolhidos aleatoriamente e divididos em quatro grupos. Parte deles recebeu infusões intravenosas de tocilizumabe e outra, solução salina, que funcionou como placebo, a cada quatro semanas. Os outros dois grupos combinaram o tratamento com uma rotina de exercício físico.

Exames de ressonância magnética ajudaram a avaliar a massa de tecido adiposo visceral no início e no fim do experimento. No grupo do placebo, o exercício reduziu a massa de tecido adiposo visceral, na média, em 225 gramas, ou 8%, em comparação com os que não praticaram a atividade física. O tratamento com tocilizumabe, porém, eliminou esse efeito. Quem tomou a substância e praticou exercício sofreu aumento da massa de tecido adiposo visceral em aproximadamente 278 gramas, em comparação ao grupo placebo.

Além disso, o tocilizumabe aumentou o colesterol total e o “colesterol ruim” nos integrantes dos dois grupos em que foi administrado. “Até onde sabemos, esse é o primeiro estudo a mostrar que a interleucina-6 tem um papel fisiológico na regulação da massa adiposa visceral em humanos”, ressalta Anne-Sophie Wedell-Neergaard.

Segundo a cientista, nessa etapa da pesquisa, não há a pretensão de avaliar possíveis tratamentos clínicos. Um dos pontos que impede esse avanço é o fato de a interleucina-6 desempenhar efeitos aparentemente opostos em alguns tipos de inflamação. É possível, por exemplo, detectar elevações crônicas da molécula em pacientes com obesidade grave, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. “As vias de sinalização nas células imunes e nas musculares diferem substancialmente, resultando em ações pró e anti-inflamatórias. Então, a interleucina-6 pode agir de forma diferente em pessoas saudáveis e doentes”, explica.

Incipiente
De acordo com Fernanda Lopes, endocrinologista do Laboratório Exame, em Brasília, existe, entre os profissionais da área, a suspeita de que a interleucina-6 pode estar relacionada à perda de gordura durante a prática de exercícios físicos. O trabalho dinamarquês, portanto, reforça essa tese. “Também cogita-se que ela melhore a massa muscular, mas essa função não foi observada nesse estudo”, pondera.

A médica brasileira acredita que a investigação ainda é inicial e precisa de aprofundamento. “Outro ponto é que o número de pessoas analisadas não foi tão grande. É importante frisar que mais pesquisas são necessárias para entender se essa reação realmente se confirma. No passado, por exemplo, achávamos que a leptina era a grande salvadora contra a obesidade, mas estudos mostraram que as pessoas obesas tinham alta resistência a ela. Por isso, é necessário prudência”, frisa.

A equipe dinamarquesa pretende observar se existe a possibilidade de a interleucina-6 afetar diretamente gorduras ou carboidratos. Eles também investigarão se a molécula pode ser administrada no corpo humano com uma injeção, funcionando como um tratamento para reduzir a massa de gordura visceral. “São os nossos próximos planos. Ainda precisamos de uma compreensão mais aprofundada desse papel da interleucina-6 a fim de discutir suas implicações”, diz Anne-Sophie Wedell-Neergaard.
Descompasso hormonal

É um hormônio produzido pelo organismo humano que age no hipotálamo reduzindo o apetite e otimizando o gasto energético. Como é fabricada pelo tecido adiposo, quanto mais gordura corporal, maior a quantidade de leptina produzida. Dessa forma, obesos têm grande quantidade dessa substância, mas grande parte deles também apresenta resistência a ela. Nesses indivíduos, há ainda redução dos receptores da leptina no sistema nervoso central, o que faz com que o cérebro não receba os sinais de saciedade enviados pelo hormônio.
Continua depois da publicidade
Molécula modeladora
Experimento mostra que a interleucina-6 tem potencial para estimular a perda da gordura abdominal

– Em testes anteriores, cientistas observaram que 12 semanas de exercício com bicicleta diminuíram a gordura abdominal em adultos obesos

– O efeito, porém, não foi registrado em participantes tratados com tocilizumabe, droga que bloqueia a sinalização da molécula interleucina-6 e é usada no tratamento da artrite reumatoide

– A equipe desconfiou que a interleucina-6 poderia desempenhar papel importante na regulação do metabolismo energético ao estimular a quebra de gorduras em pessoas saudáveis. Dessa forma, poderia ser usada contra a obesidade

– Para comprovar a suspeita, 53 adultos obesos foram divididos aleatoriamente em quatro grupos conforme as seguintes intervenções:

1. Infusões intravenosas de tocilizumabe

2. Infusões intravenosas de tocilizumabe combinadas com prática de exercício

3. Administrações de solução salina (placebo)

4. Administrações de solução salina (placebo) combinadas com prática de exercícios

– Os exercícios consistiam em sessões de 45 minutos de bicicleta, e as substâncias foram administradas a cada quatro semanas. Os testes duraram três meses

– Exames de ressonância magnética mostraram a massa de tecido adiposo visceral no início e no fim do estudo, e os cientistas chegaram às seguintes conclusões:

1. O exercício reduziu a massa de tecido adiposo visceral em cerca 225 gramas nos integrantes do grupo placebo, quando comparados aos voluntários que apenas ingeriram a solução salina

2. O tratamento com tocilizumabe aumentou a massa de tecido adiposo visceral em aproximadamente 278g naqueles que também praticaram exercício, quando comparados aos na mesma condição no grupo placebo

3. O composto ainda aumentou o colesterol total e o “colesterol ruim” em integrantes dos dois grupos

Continua depois da publicidade

– A intenção é de, na próxima etapa da pesquisa, avaliar se a interleucina-6 afeta gorduras ou carboidratos e se, administrada como uma injeção, é capaz de reduzir a massa de gordura visceral

Fonte: Revista Cell Metabolism