Quinta-Feira, 21 de Março de 2019 - Ano 6

Manoel Carlos Karam

3 dezembro, 2018

Foi em 1995 que fui jurada do prêmio literário Cruz e Souza, feito pelo governo de Santa Catarina em carácter nacional, e quando aceitei ser jurada (na área de romance), jamais imaginei o que viria pela frente. Foi grande o susto quando parou uma Kombi lotada de originais na frente do meu prédio e aquela montanha de possíveis futuros romances adentrou à minha sala e deu uma encolhida nela. Lindolf Bell, então ainda um jovem e fascinante poeta da minha cidade de então, por aqueles dias telefonou-me, assustado:

– Chegou uma Kombi cheinha de originais de livros de poesia para julgamento! Estou apavorado!

Estávamos, os dois, mas era necessário pôr mãos à obra. Tinha tido a sorte de pouco antes haver lido a incomparável autobiografia de Jorge Amado (Navegação de Cabotagem), onde ele conta situação semelhante pela qual passou e a receita que usara para resolvê-la: lera cada original até à página 30, para começar a selecioná-los, e foi o que fiz. Logo tinha 3 pilhas de originais no chão da minha sala: os que não tinham nenhuma condição de concorrerem (pense bem, se até à página 30 um livro não te “fisgou”, ficaria muito difícil que viesse a fisgar depois), e mais duas pilhas que leria até à página 60 – uma com mais e outra com menos expectativa.

Resultado: chegou um momento em que a seleção foi se refinando, que cheguei como que a uns 15 possíveis finalistas (que então li até à página 90), e depois uns 10, e depois uns cinco… O bacana dessa seleção é que os outros dois jurados (Carlos Nejar, no estado do Espírito Santo e Deonísio da Silva, então no estado de São Paulo) passamos a nos telefonar e descobrimos que estávamos chegando a mais ou menos os mesmos finalistas. E então no dia aprazado, nos encontramos em Florianópolis para o final do julgamento, cada um trazendo os 3 originais que achara melhor. Carlos Nejar, insigne companheiro da Academia Brasileira de Letras, machucara o pé ao sair do avião, e lembro como, na recepção do hotel eu tirei seu sapato e meia e fiz massagem com Gelol no mesmo, coisa que nunca imaginara fazer na vida!

Foram 2 ou 3 dias de doce convívio com esses companheiros das Letras e o julgamento final foi fácil: ganhava um romance de nome “Cebola”, que com finura de texto nos propunha indagações sempre crescentes, como quando se tiram as muitas e diversas camadas de uma cebola, e as simpáticas moças que acho que eram da Fundação Catarinense de Cultura, então, nos trouxeram os envelopes com as identificações dos concorrentes, e num instante achamos e abrimos o envelope do vencedor: nada mais na menos que Manoel Carlos Karam, que naquele momento eu só conhecia através daquele livro vencedor!

Aos poucos, fui sabendo mais dele: apesar de ser nascido em Rio do Sul/SC, vivia na cidade de Curitiba/PR, mas só vim a conhece-lo pessoalmente alguns anos depois, quando, em companhia dos demais colegas da Academia Catarinense de Letras, estivemos no Rio de Janeiro, para conhecer e participar de eventos na Academia Brasileira de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Lá no IHG estava Manoel Carlos Karam, alguém quieto e diria que humilde, homem alto e grande, pouco mais velho que eu, que portava folgadas roupas sem luxo e sandálias franciscanas e que estava na companhia de sua companheira. Ficou no seu canto, quieto. Não cheguei a falar com ele, mas fiquei a imaginar como funcionava o seu processo criativo para escrever livros como “Cebola”, intensamente fascinada pela oportunidade de vê-lo pessoalmente, considerando aquele momento como um dos que a vida costuma me presentear. Ele era ainda tão jovem; não faltaria oportunidade de conversar com ele em momento menos conturbado, só que não deu. Ele partiu muito cedo, em 2007, com apenas 60 anos, mas o tenho na minha memória como aquele homem forte e alto na sua roupa simples e confortável, usando sandália franciscana e capaz de produzir obras que ganhavam concursos nacionais.

No próximo dia 13.12.18 a Academia Catarinense de Letras vai entregar ao Karam o prêmio Othon Gama D’ Eça. Como ele já partiu, fico pensando naquela solidária companheira dele que vi no Rio de Janeiro, e imagino que ela é quem virá receber essa honraria de agora.

Espero um dia encontra-lo para botar a conversa em dia, Manoel Carlos Karam!

Sertão da Enseada de Brito, 03 de dezembro de 2018.

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia.