Domingo, 16 de Junho de 2019 - Ano 6

NOSSO FAMOSO FUTEBOL

11 março, 2018

Recém voltei de viagem a países como o Equador e a Colômbia, e fiquei espantada em como o nosso futebol é famoso por lá. As pessoas perguntam de onde somos, e quando sabem que somos brasileiros, na maioria das vezes vem a exclamação:

– Oh! Do Brasil? Es el mejor fútbol del mun­do!

Custei um pouco a entender que aquela palavra pronunciada com apenas duas sílabas significava futebol, mas en­tendi bem depressa a admiração que os povos daqueles países irmãos têm pelo nosso esporte maior.

Quando estive na Europa, descobri que Pelé, sem dúvida nenhuma, era o nosso grande embaixador lá fora, conhe­cido por oito entre dez europeus, mas sua figura popularíssima é mais a de um grande desportista, e não exatamente o símbolo do futebol brasileiro. Nosso Rei tem incontestável majestade no Ve­lho Continente, mas isto não significa que o europeu fique baban­do em cima do nosso futebol e dizendo que é o melhor do mundo.

Já a coisa muda muito, aqui no Noroeste da América do Sul. Nossos irmãos americanos são todos loucos por fu­tebol, e têm uma grande curtição a respeito do futebol brasilei­ro. Não encontrei nenhum que dissesse que torcia pela Argentina – vi foi um colombiano jovem, que dizia e repetia que torcia pelo Brasil em qualquer circunstância, mesmo quando o Brasil jogava com a Colômbia. O irmão dele, que estava junto, não se conformava com aquilo e chegou a lhe dar uns pescoções, mas o rapaz conti­nuava repetindo que até contra a Colômbia torcia, a favor do nos­so futebol.

Eles têm uma curiosidade muito grande a res­peito de tudo que se relaciona com o nosso esporte do coração, e sabem coisas que não se sabe na Europa, como os nomes dos nossos jogadores, por exemplo: falaram em Pelé, mas também em Zico, em Marcelinho Carioca, em Túlio, em outros – estão ligadíssimos no que acontece no Brasil.

Em animado papo na praia de Taganga, no Caribe Colombiano, um homem me perguntou:

– É verdade que, quando o Brasil perde, vocês choram?

Se choramos? Contei-lhe como choramos, de tristeza nas derrotas, de alegria nas vitórias, choro para todos os lados quando se trata da nossa Seleção Brasileira. O colombiano ficou me olhando e refletindo – vi que acreditava, mas que não conseguia entender. Aquilo era demais para ser compreendido por quem não é brasileiro!

E continuamos nossa viagem, sempre a ouvir en­tusiasmados elogios ao nosso fútbol, elogios que a gente via serem espontâneos, nascidos da alegria que os nossos jogadores têm distribuído pelo mundo inteiro, com a sua leveza, a sua téc­nica e a sua criatividade.

Grande embaixador, o nosso futebol! Nossos irmãos do terceiro mundo não nos perguntam sobre as crianças abandonadas, sobre a destruição da Amazônia, sobre nossos 32 milhões de miseráveis – eles têm problemas parecidos com os nossos, sendo que a Colômbia, de quebra, tem diversas guerrilhas que lutam contra o capitalismo e forças paramilitares que assassinam em no­me do capitalismo. Nossos irmãos do terceiro mundo estão sequio­sos de alegria, e pude ver bem de perto o quanto curtem a alegria linda do futebol brasileiro. Nossa América Latina, com todos os seus problemas, está intensamente viva, grávida de sonhos, e tem muito, mas muito mais vida que o primeiro mundo. Há os problemas, é claro, mas algum dia eles serão resolvidos. Nosso mundo dito lati­no-americano não se permite viver triste esta única vida que tem, ficar parado na angústia dos problemas: é necessário ser feliz aqui e agora. E então, quando conhecem um brasileiro, nossos vi­zinhos sentem-no irmão porque o Brasil tem um grande futebol. E sorriem seus mais lindos sorrisos quando falam de Zico, ou de Dunga, pequenos deuses da sua mais límpida alegria, gente que não é estranha apesar de usar outra língua, pequenos deuses que guardam no coração como coisas preciosas!

E então, depois do entusiasmo do futebol, eles acabam perguntando:

– E o Rio de Janeiro? E o Carnaval?

Mas, sem dúvida, o futebol vem em primeiro lugar nos seus corações!

Blumenau, 20 de outubro de 1996.

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia