Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2019 - Ano 6

Nada de ficar chorando o Pratto derramado

12 fevereiro, 2017

Pra não ter de passar o pires, Galo vendeu o Pratto – pelo menos se findam aqui os infames trocadilhos entre jogador e utensílios de cozinha. Dia 10, à tarde, escorrendo na face o famoso suor hétero, vi e revi seus gols numa compilação que tinha ao fundo um sertanejo desses que fazem o corno se desmanchar no primeiro estribilho. “Não aprendi dizer adeus!”, gritava um Leandro, talvez um Leonardo, vai saber. Ave, Maria, ops, Ave, Cruzeiro, eu não posso com isso não…

Quando o atleticano fica sentimental – e nesse caso o peito estava dilacerado pela iminente separação -, o melhor remédio é o seu rivotril, sua dosezinha de ópio do povo: jogo do Galo. Ufa! Ainda bem que tinha a peleja contra o Joinville, e portanto estava garantida a cachaça pra curar nossa dor de corno.

E não foi uma cachaça qualquer, um metanol da vida, uma 51. Foi cachaça de Salinas, coisa fina, Vale Verde, Nega Fulô. Pra eliminar um chifre, use chapéus de Leonardo Silva. Pra esquecer o Pratto, uma dose fulminante de Otero, o nosso Éder Aleixo bolivariano. Quando aquela bola entrou, aconteceu comigo igual o fenômeno do desaparecimento das panelas nas varandas gourmet: de repente não tinha mais Pratto, não tinha pires, não tinha nada.

Ademais, combinemos: dor de corno se resolve também com uma divisão favorável de bens, uma boa pensão. Não é à toa que o Chico Buarque, querendo sair fora logo, sugeriu ficar apenas com o disco do Pixinguinha, “o resto é seu”. Acabou levando também o Neruda, que ela nunca leu, mas foi só. Bateu o portão e foi pegar a Marieta Severo – vida que segue!

O Galo vendeu o Pratto pelo preço de um conjunto inteiro de porcelana chinesa (aproveitando pra gastar os trocadilhos, agora próximos da data de vencimento). Fala-se em R$ 40 milhões, padrão Angorá. Talvez seja um pouco menos, categoria Botafogo ou Todo Feio. Ainda assim, sem querer cuspir no Pratto, é dinheiro demais pra recusar pelo reserva de Fred, e portanto vai como Deus, pode levar o Neruda, o Pixinguinha, pode saquear tudo e chamar a gente de Espírito Santo. Obrigado, Lucas Pratto, você honrou a camisa, seja feliz sempre, esteja onde estiver, menos no Cruzeiro!

Agora é com o xará, atleticano de quatro costados, portador, dizem, de uma tatuagem da Galoucura que foi obrigado a esconder pra jogar, a contragosto, no arquirrival. É com Elias, que fez boa estreia no jogo de quinta. Bastaram os dois últimos jogos, e o atleticano já tá igual às capas da Exame, naquele otimismo de torcedor fanático (a gente pelo Galo, eles por Caju, Angorá e o resto da quadrilha): “O pior já passou”, dizia uma delas. Tamo vendo.

No nosso caso, sim, o pior parece mesmo ter passado e todo o otimismo se justifica. O Galo já faz a bola rodar de pé em pé, sem chutão. Já começa a se acertar. Do meio pra trás, não tem um que não saiba sair jogando com qualidade.

Leonardo Silva e Gabriel é a zaga potencialmente mais interessante do Brasil. Elias e Rafael Carioca, a melhor dupla de volantes. Danilo surge como gratíssima surpresa. Otero, outra: arma, chuta, defende, tem a disposição do sujeito que bate o escanteio e corre pra cabecear. E ainda falta o Robinho, minha gente, provavelmente no lugar de Cazares. Falta Luan. Falta São Victor fazendo a ponte com o homem lá em cima.

É por isso que eu lhes digo: nada de ficar chorando o Pratto derramado – o negócio é olhar o copo cheio. E vamo que vamo, porque amanhã tem mais e o Fred vai te pegar.

A coluna transcreveu o texto de Fred Melo Paiva /Estado de Minas