Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2019 - Ano 6

Quando nos tornamos idosos

6 outubro, 2018

De tudo o que já foi dito sobre a velhice, nada é mais certeiro, frio e derradeiro do que a afirmação de que o velho ( eufemisticamente denominado idoso) é um exilado. Exilado das manhãs claras , das perspectivas futuras. Exilado de um mundo que não mais lhe pertence e que fugiu ao seu gosto e controle.

O fôlego, necessário para abarcar o horizonte, falha. A mão para empunhar o remo e o leme, treme e vacila. A memória das rotas traçadas no mapa da existência, titubeia.
Dos infinitos amigos que compartilhavam a enorme mesa, farta de vinhos finos, cheios da alegria animada, restaram apenas as vozes alegres na memória, as gargalhadas e conversas compridas.

O pátio, atulhado de pés ligeiros que seguiam em todas as direções, está agora coberto pelas folhas secas do outono que farfalham trazendo os passos do passado. Vir e voltar só, sem mesmo a roupa do corpo. E para que roupa ou outro acessório inútil? Na velhice o que tem valor é o efetivamente valioso.

É no silêncio escuro e vazio que a solidão arde nua. Solidão que deixa de ser quando a memória volta aos tempos de ar puro. Não adianta gritar. Não tem ninguém. Grito é para os fracos. O silêncio é para os sábios. Os amigos, poucos, foram arrancados um a um. Não da memória. Isso nunca. O tempo levou o ânimo mas o ar traz o conforto da brisa fresca.
Vós que adentrais pelos portões da velhice, deixais de fora as esperanças e a vaidade. Deixem de lado todo peso das malas.

A velhice não traz a superficialidade que flutua no mundo. Ela nos torna densos. De que importa agora o aquecimento global e a longa guerra entre Palestinos e Israelenses. Bendizeis as noites de verão. Bendizeis os dias em que alcançastes a paz com aqueles que o atacaram por inveja, por injustiça ou mesmo porque nasceram maus. Perdoa. Livra o peso da mágoa e deixa a alma mais leve.

Que importa agora se as flores não abrirem. Bendizeis os buquês enviados. Que importância tem agora aqueles que não vieram à estação de embarque se despedir. Bendizeis o amor e a família. A velhice que alguém já comparou à um naufrágio, é antes de tudo, um porto. É a terra para que o pisar se firme. As barreiras, todas elas, foram erguidas tijolo a tijolo.

O muro agora é alto e frio. Do lado de lá gritam as crianças numa algazarra que esquenta o coração. Melhor é esquecer o espelho de tantos anos. Espelho sem serventia. Que mostra a vaidade. Chega de reflexos. Melhor esquecer a luz quente da vela sem esquecer a prece. Melhor mesmo é se deitar agora, sob o cobertor de lã e dormir, sonhar sem a censura que nos freia a todo instante. Amanhã vai ser um outro dia. E a gratidão por isso será eterna.

HAG.