Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2019 - Ano 6

Espírito de Natal

8 dezembro, 2018

Um jovem de uns 20 a 22 anos de nome José (velho apenas para os apócrifos, escritos 300 anos após os evangelhos) vivendo em Nazaré, norte da Palestina, teve que deslocar-se para o sul, para Belém, a fim alistar-se num recenseamento. Levava sua mulher Maria, já grávida de nove meses. Chegando ao local, Maria entrou em trabalho de parto. José procurou as pousadas da região e explicou a urgência. Mas todos diziam: “não tem mais vaga”. Ele não teve outra alternativa senão procurar algum canto que fosse minimamente seguro. Encontrou uma gruta onde os animais se protegiam contra o frio daquela época do ano. Ai, numa gruta, Maria deu à luz a um menino, chamado inicialmente Emanuel e depois Jesus. E eis que aconteceu algo surpreendente, realmente mágico, fator que sempre confere encanto à hitória. Esta não se rege pelos cânones frios da racionalidade mas pelo imprevisto e o imponderável. Por isso ela tem sabor.

Eis que irrompeu um clarão imenso, uma como que estrela que pairou sobre aquela gruta. A vaquinha que mugia baixinho e o asno que ressoava ficaram imóveis. Lá fora as folhas que farfalhavam ao vento, pararam. As águas do riacho que corriam, estancaram. As ovelhas que bebiam, ficaram inertes. O pastor que ergueu o cajado no ar ficou petrificado. Um profundo silêncio e uma paz sereníssima tomou conta de toda a natureza. Foi nesse exato momento que veio a este mundo a Criança divina. Imediatamente após, ouviram-se vozes do céu, captadas pelos que estavam atentos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra a todas as pessoas de boa-vontade”.

O impacto deste evento foi tão grande que nunca mais pôde ser esquecido. Dois mil anos após é ainda lembrado e celebrado, de alguma forma, em todo o mundo. É a magia do Natal. Foi secularizado pelo Papai Noel e entrou no mercado com os presentes de Santa Klaus. Mas ninguém conseguiu ainda destruir o espírito do Natal. É uma aura benfazeja que precisa ser preservada pois nos faz mais humanos. Qual será?

Primeiro, que Deus é principalmente Criança e não antes de tudo Criador e Juiz severo. Uma criança não ameaça ninguém. É só vida, inocência e ternura. Mais que ajudar a outros, ela precisa ser ajudada e acolhida. Se imaginarmos Deus assim, não precisamos temer. Enchemo-nos de confiança.

Segundo, o ser humano por ruim que seja, deve esconder um valor muito grande a ponto de Deus querer ser um dele. Bem me disse, um dia, um esquizóide: “Cada vez que nasce uma criança, é prova de que Deus ainda acredita na humanidade”. Deus acreditou tanto que quis nascer criança frágil, com os bracinhos enfaixados para não ameaçar ninguém.

Por fim, a Criança divina nos lembra o que somos na profundidade de nosso ser: uma eterna criança. Crescemos e envelhecemos. Mas guardamos lá dentro a criança que nunca deixamos de ser. A criança representa a crença de que é possível um mundo diferente, de inocência, de olhar sem malícia e de pura alegria de viver.Viveríamos sem esse sonho?

Divino Infante, realiza em nós este destino!
Não deixe que em nós morra a esperança!
Não esqueça que foste como nós, menino!
Nasça de novo em nós como Criança.

http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm