Quinta-Feira, 21 de Março de 2019 - Ano 6

As vezes é melhor deixar que a vida nos mostre o caminho a seguir

25 novembro, 2018

No dia a dia agitado, em meio a compromissos inadiáveis, atividades inevitáveis e tarefas obrigatórias, tentamos a todo custo momentos de sossego. É no intervalo entre um dever e outro que buscamos a paz necessária para criar algo que, de fato, nos realize. E é aí que surge uma armadilha: o risco de não conseguirmos nos desvencilhar do pensamento nas obrigações diárias, na agenda lotada de marcações.Uma saída é parar tudo, reorganizar o caderninho e verificar se, realmente, o que desejamos não pode se elevar à categoria de prioridade em alguma parte do dia. Talvez estejamos dedicando atenção demais a algo que já não seja tão relevante. E, nesse caso, poderíamos abrir espaço para uma novidade.

Mas existe, também, uma outra solução: deixar pra lá. Pode parecer contraditório, mas, muitas vezes, ao abrirmos mão de algo, temporariamente, o caminho para conquistá-lo acaba sendo abreviado, como se o “deixar de pensar” exercesse uma atração irresistível sobre nosso objeto de desejo. É comum ouvirmos esse tipo de conselho para mulheres que há anos querem engravidar: “não pense mais nisso e você consegue”. E, muitas vezes, consegue mesmo. Esse tipo de ironia do destino também acontece em diversas outras circunstâncias. O grande poeta português Fernando Pessoa disse que, ao tentar incorporar um poeta bucólico, nada acontecia. Os dias se passavam e ele não conseguia. Disse Pessoa: “Num dia em que finalmente desistira acerquei-me de uma cômoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever , de pé, como escrevo sempre que posso”. Surgia ali Alberto Caeiro, um dos heterônimos do escritor. No fundo, Pessoa não tinha desistido da ideia. Mas havia relaxado, abandonado a autocobrança, eliminado a pressão.

Por isso, pode valer a pena – e muito – exercer a arte de parar, desligar o motor, puxar a tomada da parede. E, como Zeca Pagodinho, deixar a vida levar.

HAG.